Ruy Obersteiner: explorando os limites da matéria

Conheci o trabalho de Ruy ao despretensiosamente visitar a Casa Jardim Secreto. Não procurava por algo específico, minha intenção era ser guiada pela curiosidade. Dois passos, foram necessários apenas dois passos dentro da loja, minha atenção foi totalmente direcionada ao distinto conjunto de xícaras arranjadas sobre a mesa ao centro. Como? ressoava em minha mente, como cria-se algo assim?. Contornei a mesa, a curiosidade que até então gentilmente me guiava, agora me puxa.

Cerâmicas de Ruy Obersteiner na Casa Jardim Secreto, 2025. Foto: Beatriz Albuquerque.

Busquei mais informações sobre o artista, encontrei a próxima feira em que ele estaria presente. Dádiva do acaso, e agora providência narrativa, na semana seguinte a minha descoberta, Ruy estaria expondo o seu trabalho em uma feira de artesanato no meu bairro. Fatalidade do destino ou não, minha presença estava marcada.

O dia do evento chega, saio de casa acompanhada da minha inquietude favorita: como?

Caminho alguns metros, ativamente divagando entre as barracas, até que, bastou um relance, minha atenção é conquistada pela farta colagem de cores e formatos, peças dispostas em sua harmonia caótica. Não acredito em amor à primeira vista, ao que insiste em me cativar, todavia, dou o devido crédito. A cena inicial se repete, amor à segunda vista, foco fixo no que me cativa.

Encontro com Ruy e finalmente consigo compartilhar minha inquietude em forma de curiosidade. “Fiquei encantada com o seu trabalho, como é o seu processo criativo?

Ruy Obersteiner, Feira Oficio 2025

Ruy Obersteiner, Feira Oficio 2025. Foto: Beatriz Albuquerque.

Ruy gentilmente me conta que sua técnica foi desenvolvida pouco a pouco, fruto de muita tentativa e erro. No início chegou a aprender a técnica correta da cerâmica, o molde ideal, o tempo certo, a forma perfeita, o que era permitido misturar e o que era terminantemente proibido. “É importante entender os fundamentos, o material e a técnica têm características próprias” ele me diz “mas os fundamentos existem para serem explorados e questionados, não precisam ser seguidos à risca, e eu queria descobrir o que acontecia ao quebrar a regra”. Obersteiner sentia que as regras inflexíveis propostas pela técnica “correta” limitavam o seu processo criativo, seu desejo era experimentar, criando e testando nos termos da sua curiosidade. O trajeto seria longo e no início cheio de incertezas e erros, ele sabia, mas era exatamente o que desejava — ir de encontro ao desconhecido e lá encontrar sua própria técnica. Conta que as primeiras tentativas foram um tanto caóticas, afinal não sabia exatamente o que esperar, estava experimentando. Mas o processo era estudado no detalhe, cada tentativa carregava uma intenção clara: entender a interação entre os materiais e a variação na cor e na forma, avaliar o tempo da queima e o formato/espessura na peça, dentre os mais diversos processos. Já admirava Ruy desde o primeiro momento em que tive contato com o seu trabalho, e essa conversa só intensificou o sentimento.

Minha admiração se liga ao campo do enigmático, meu interesse ganha corpo nas incertezas. Trabalhos destrinchados em etapas metódicas, visando um resultado cirurgicamente calculado, carregam o seu valor, porém pouco me interessam. O processo criativo orientado majoritariamente por precisão e lógica produz, obviamente, algo contido e previsível. Vire este exemplo ao avesso, dessa vez intencionalidade e curiosidade orientam o trabalho, o resultado é uma surpresa norteada pela intenção. Engana-se quem acredita que o oposto da previsibilidade é o completo caos; o avesso do previsível é o inusitado.

O trabalho de Obersteiner é coerente e intencional, nunca previsível. O estudo minucioso dos materiais e do processo, somado a dedicação constante em desenvolver uma técnica própria, formam a base sólida em que o acaso intervém como força inventiva. Seu trabalho me instigou desde o princípio por ser fruto da curiosidade, fiel à intenção criativa e desgarrado de regras e expectativas desnecessariamente rígidas. Em meio a cores e formas distintas, a singularidade técnica do trabalho de Ruy se apresenta cristalina — autenticidade nítida e reluzente.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Ruy Obersteiner acesse o seu site e perfil no Instagram.